11 ANOS DEPOIS DA LAMA, A MESMA DESUMANIDADE

Exatamente no dia em que o rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, completa 11 anos – data marcada pela memória da devastação e por justos protestos de atingidos que bloquearam as vias de acesso -, a Vale deu mais uma demonstração de seu desprezo pela dignidade e pela vida humana. Centenas de trabalhadores foram submetidos a horas de cárcere sobre rodas, expostos a condições degradantes e a um estresse intolerável unicamente para atender à obsessão cega da mineradora em não perder um minuto sequer de produção.

Desde as 5 horas da manha, trabalhadores foram retidos em dezenas de ônibus parados em bloqueios na rodovia, empilhados nas imediações da fábrica de cimento após o Bonanza e na região da Vila Maquiné. Enquanto outras empresas do complexo, como a Samarco, demonstraram o mínimo de bom senso e respeito ao liberar seus funcionários de volta para casa logo nas primeiras horas, a gerencia da Vale agiu com perversidade calculada: proibiu os motoristas de retornarem e ordenou que todos aguardassem indefinidamente dentro dos veículos.

O cenário relatado por quem viveu a espera beira a crueldade. Sem acesso a água, sem qualquer alimentação e privados de instalações sanitárias básicas, homens e mulheres foram mantidos reféns do calor asfixiante. Para racionar combustível – num reflexo grotesco de mesquinhez corporativa -, as ordens levaram ao liga-e-desliga intermitente dos motores, cortando o ar- condicionado e transformando os veículos em verdadeiras estufas. Relatos confirmam trabalhadores passando mal por desidratação e estresse térmico, enquanto funcionárias se viram obrigadas a arriscar a própria integridade física atravessando a rodovia em meio ao trafego pesado para tentar usar banheiros de empresas vizinhas.

Além da violação aos direitos humanos mais elementares – tratando pessoas como cargas descartáveis -, a conduta da Vale configura uma negligência criminosa contra as normas de segurança do trabalho. Enviar profissionais para frentes de operação pesada e minas de alto risco após horas de confinamento, fome, sede e exaustão psicológica é flertar abertamente com novos acidentes e tragédias. Um trabalhador desidratado, humilhado e com os nervos aos frangalhos não tem condições operacionais mínimas de atuar em uma área industrial de alto risco.

A Vale não apenas ignora a memória e o luto da região que ajudou a destruir há mais de uma década, mas reafirma a cada decisão a sua cartilha de desrespeito: o lucro e a tonelada de minério extraída valem mais do que a saúde, a integridade e o respeito básico devido aqueles que movem a empresa todos os dias.